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Paulo Cetáceo era filósofo. Achava que a vida era uma rampa ensaboada. O vivente nascia e ia escorregando no rumo da morte. Não precisava fazer esforço, porque, ao fim, ia dar no mesmo. Variava de atalho, o endereço final nunca. Concluía, sábio: “Viver é escorregar”. Uns, em espinhais, cascalheiras. Outros, na maciota, em gozo e desfrute na ladeira favorável dos dias. No tempo azado escorregou Cetáceo nos encantos de Afrísia. Morena com todas as protuberâncias que o escambo afro-índio-luso engendrou. Olhos, nem se fala, mais que Capitu, puro veneno, cicuta com mel, perdição. O pobre Cetáceo não resistiu, passou dos escorregões para as conexões e acabou no cartório e com bênção de um celibatário que adorava casar os outros. Casado, não patinou, espalhou-se logo pelos desvãos e curvas de Afrísia que, sem se fazer de rogada acolhia sua ânsia de candiru. Em pouco, um, depois dois, logo três, e lá se vão quatro rebentos escorregadios pesando na babosa biografia de Cetáceo. De tanto roçar, alisar, escorregar, aquela vida com Afrísia foi ficando monótona. A rampa de passagem da vida estreitou-se, íngreme. Inevitável pasmaceira invadiu sua vida em descenso. Afrísia, por sua vez, cresceu os olhos, eriçou-se para o lado do vizinho, Eutércio. Admirou a estampa, o cheiro, o penteado, o brilho dos sapatos e resvalou para a cama do vizinho. De início, discretamente, depois indiferente, ao final, com petulância, jogando na cara de Cetáceo a diferença de tratamento, o fulgor da paixão, o virtuosismo do amante. Antes de causar estupor ou constrangimento, Cetáceo viu aquilo com compreensão escorregadia. Já andava mesmo cansado do desforço unívoco, sem fagulha do antigo fogo. A opção de Afrísia o desobrigou do debitum conjugalis, do vuco-vuco protocolar das terças, quintas e domingos, imposto desde o início pela virago. O incômodo era só o fato do vizinho Eutércio, ultimamente, andar cortando voltas, desviando o rosto, esgueirando-se em cumprimentá-lo. Abaixava os olhos, derrubava o chapéu na testa, escolhia sombras e anteparos para não encará-lo. Negaceou, até que um dia, na calçada estreita, chocaram-se, irremediavelmente. Eutércio tremeu, quando Cetáceo o segurou pelo braço e, abraçando, salvou-o de rolar na sarjeta. Eutércio, claudicante, balbuciou gaguejando: “O Sr. Me desculpe!” Compreendendo a extensão semântica do vocábulo trêmulo do comborço, Cetáceo o confortou. Olhou-o nos olhos, derramou brandura nas palavras, exortou o mal-ajeitado vizinho: “Calma, companheiro, você não precisa se amofinar, desviar da minha presença. Não guardo qualquer desconforto para com sua pessoa. Sou-lhe, ao contrário, muito grato e reconhecido. Você está fazendo com prazer e alegria, o que para mim, há muito tempo, tem sido uma dolorosa obrigação”. Abraçou mais forte Eutércio. Pôde ver no seu semblante o alívio e um tímido sorriso escorrendo na face, desanuviada.
*Aidenor Aires é escritor, da Academia Goiana de letras, escreve neste espaço às sextas-feiras.
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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2006 |