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Em suas visagens do que seria a vida ideal, os poetas imaginam: seria um delírio, se lírios florissem nas avenidas das cidades. Ou se cada criatura tivesse a visão que teve Yuri Gagárin, ao ver, do espaço, uma terra livre de fronteiras, a girar no espaço infinito. Qual é o destino do poeta, senão o de tentar traduzir em palavras o mistério da vida? Nisto consiste o seu esforço de Sísifo, a saga a que se entrega: o de ser espelho partido, incapaz de refletir o esplendor do infinito. Isto porque, em nossa incapacidade de conhecer a verdade, despertamos de um sonho para cair em outro, como se fôssemos fantasmas de um teatro de névoas, “cheio de ruído e furor, que nada significa”. Mário Quintana, um anjo escrevedor, foi poeta, sonhou e amou na vida. Em longos dias de solidão sem infelicidade leve viveu, quintaneando pelas ruas de Porto Alegre, de quem só sentia remorsos pelas ruas da cidade que jamais conheceria. Quando nasceu (nu como todo mundo) fazia um frio de congelar os ossos do capeta (cinco graus negativos). Tendo sobrevivido a isto, e a todas as doenças infantis, acho que seria de seu dever não morrer antes da morte. Por isto jamais reclamou de não ter tido, em toda sua vida, um teto todo seu. Como cidadão do mundo, morava em si mesmo, como dizia sempre. Mário quintaneou, por toda a vida, como eterna criança, a passarinhar pelos dias, enquanto se matavam, em refregas frenéticas e ridículas, os “homens sérios”, avessos a “bobagens de poesia”. Mário Quintana não quis senão ser capitão do navio de seu destino, sabendo não ter a vida a carranca que nela colocamos. Leveu viveu, pois sabia que na poesia “a fuga é para cima”. Por ser, em si mesma, “reinvenção da verdade”, a poesia é talvez, de todas as artes, a que nos revela a nossa verdadeira Eudade (nosso primeiro rosto, e o mais profundo, dentre todos). Daí ser rejeitada, ou temida. Eis o que escreveu, em leve ironia, este anjo escrevedor nascido nos pampas do Rio Grande do Sul: “Aos que estão atravancando o meu caminho/ eles passarão/eu passarinho/”. Hoje, cidadãos de longínquas e civilizadas terras, nas vastidões do mundo, só sabem que existe no planeta uma cidade de nome Porto Alegre porque nela viveu e cantou como um pássaro (sempre a fugir para cima) um anjo escrevedor, que não foi senão gauche, em sua vida simples e humilde. brasigoisfelicio@hotmail.com
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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2006 |