Doces Lembranças da Vila Nova

Aidenor Aires*

Vila Nova. Bairro democrático de baianos, nordestinos, mineiros. Gritaria dos mascates sírios e o silêncio operoso dos japoneses. O coração do bairro era a praça do mercado, com sua feira aos domingos.

Ali também era o largo da igreja. O comércio, a política, o lazer lícito e marginal também ali se exercitavam. O lícito, durante o dia; o pecaminoso, nas barracas de luz vermelha que atulhavam o logradouro, à noite, depois do recolhimento casto das virgens, que ainda existiam.

O mercado e a feira foram os espaços do restante da minha infância abreviada nas durezas do sertão da Bahia e nos roteiros inseguros de nossa vida de retirantes.

O que mais me atraía na feira era a fartura de frutas, salgados e doces. Entre as tentações, me cativavam como promessas de paraísos gulosos, os imensos doces e requeijões produzidos, segundo receitas imemoriais, pela família de Melquíades Cardoso.

Aliás, quem comandava a deliciosa indústria era dona Chica, Francisca Cardoso dos Santos, com suas filhas Bidinha, Paciente, Raimunda e Mariquinha, suaves galhos de um tronco de quase duas dezenas de filhos, somados os trazidos por Melquíades aos que vieram das núpcias com Francisca.

Ali, na sétima Avenida, já chegando ao Moinho Goiás, a casa simples exibia no avarandado, logo à entrada, imensos tachos de cobre fervendo arrobas de doce de mandioca e leite e o maravilhoso requeijão.

Primeiro, o perfume da coalhada escorregando em manteiga dourada. Dona Chica manobrava a pá como um remo, tombando o imenso bolo lácteo, terna e naturalmente, como se houvesse cumplicidade entre aquela mulher de riso generoso e o peso escondido na ilusão maleável da massa.

“Deixa eu mexer um pouco” dizia um rapagão curioso. “Não vai dar conta não, criatura”, respondia Dona Chica. Com insistência o marmanjo conseguia que ela lhe passasse a pá. Poucas voltas, pescoço engrossado, suor caindo, respiração ofegante e o colosso púbere abandonava o instrumento, que retornava ao agasalho sábio das mãos afeitas de dona Chica.

Ela continuava a mover a massa até o ponto, depois derreava tudo nas formas. Aos domingos, chegavam à feira enormes tijolos de claro doce de mandioca, tendo ao lado, outros iguais de belíssimo requeijão amarelo exalando um cheiro irresistível, brilhando nos alvéolos gordos bolhas de manteiga ainda líquidas.

Dona Chica era também parteira, aquelas mãos firmes de trabalhadora e mãe de família receberam muitas crianças, em um tempo em que não se chegava ao mundo pelos guichês dos hospitais.

Chegava-se acolhido por mãos amorosas, que acompanhavam os primeiros dias da vida. Sopa de mulher parida para mãe; benzeduras de quebranto, mal olhado e chazinhos para o filho.

Fico pensando que essa conjunção de qualidades, de trabalho, solidariedade, puro e simples afeto contribuíam para tornar mais deliciosas as guloseimas fabricadas pela família de Melquíades. É pena que essas receitas tenham desaparecido e essas imagens, cheiros e sabores persistam apenas nas memórias de quem pôde ser menino naquele tempo.

 

*Aidenor Aires é escritor, da Academia Goiana de Letras

eNT...

CRÔNICAS di-VERSOS
. .capa
Menu
 
Fale comigo
 
Deixe o seu contato
 

eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2006